Onde esta a graça em humilhar o teu semelhante?
Quero começar explicando o meu ponto de vista sobre o que é ou não bullying. Eu vivi na pele isso a adolescência toda, e ainda sofro de uma forma mais velada nos dias atuais. O Bullying não é somente uma agressão física como a grande maioria pensa. O maior e mais destruidor é o verbal. O sentimental. Ele fere na alma e deixa cicatrizes para toda uma vida.
É normal ouvir de algumas pessoas a seguinte pérola; eu sofri bullying e não sou traumatizado, estes jovens de hoje que são moles. Mentira. Esta afirmação é uma máscara utopica para não aceitar a realidade. Ninguém sai ileso de tal agressão. Pais ausentes, agressivos, alcoólatras ou perfeccionistas demais, são as consequências de um passado marcado por alguma agressão fisica ou moral, apenas não têm a coragem de assumir seja por medo ou por um ego inflado demais. Gosto de escrever sobre o que eu vivi e entendo um pouco, pois assim posso citar exemplos da minha caminhada. Eu tive um pai totalmente agressivo no campo comportamental. Fisicamente foram 2 as vezes apenas que ele perdeu o controle. Mas nao sou hipócrita, eu o desafiei para isso acontecer. Voltamos ao comportamento. Meu pai não sabia dizer um muito obrigado quando algo o agradava, sempre respondia ta bom. Ele nao conversava a não ser que estivesse embriagado ( aqui abro um parêntese, era um homem extremamente trabalhador, nunca faltou um dia de trabalho na vida.) Mas bebia ao ponto de cair pelas ruas. Como conseguia se erguer e ir trabalhar no outro dia é uma pergunta que nunca achei uma resposta coerente.
Eu cresci com este pai que nunca me perguntou sobre minhas notas na escola. Nunca sentou ao meu lado e perguntou se eu precisava conversar. E ai se cria a barreira. Ele não dava a brecha e por consequência eu não tinha a iniciativa. O bullying emocional é o mais devastador. Ele consome as esperanças e deturpa nossa realidade. Certa vez meu pai me deu um tapa na boca que cortou o lábio superior e sangrou muito. Doeu e muito. Mas em outra ocasião eu cheguei em casa chorando porque os meninos na escola haviam me agredido por me julgarem afeminado demais. E meu pai apenas falou; aprenda se comportar como homem. Nada mais. Em qual situação o bullying praticado por ele me feriu como uma espada no peito. Com certeza na segunda. Me marcou de tal forma que eu continuei apanhando, sendo humilhado na escola, mas nunca mais tive a coragem de pedir ajuda em casa. Eu não sabia como era ser comportar como homem, nao que eu usasse maquiagem ou roupas femininas, nunca. Mas a figura de homem que eu tinha dentro de casa era de um ser calado, autoritário e embriagado em todos finais de semana. Eu definitivamente não queria ser aquele homem. Então escolhi sofrer todas as agressões e ir moldando meu ser. Nao estou jogando toda a culpa em meu pai. Longe disso. Somos seres unicos e capazes de reagir e discernir o que podem ou não fazer conosco. Mas quando não encontramos um acolhimento dentro de casa, principalmente na adolescência, isso se torna um monsto que nos devora de dentro pra fora.
As pessoas precisam entender que podem sim brincar umas com as outras de todas maneiras possíveis, desde que ambas as partes estejam de comum acordo. Não é bullying você chamar um amigo de negão ou de bicha se este concorda com a pejorativa e revida no bom humor. Ambos traçaram um elo de respeito que não tem peso moral estas palavras sobre um ou outro. Agora é diferente você falar isso para um desconhecido. Nao se sabe o que ele passou. Nao se sabe o que ele sente ao ouvir. Mesmo que ele seja um negão ou uma bicha ao teus olhos. Mas e se estas palavras o remetem a situações ruins, não terá o peso leve de uma palavra apenas, será como uma granada lançada ao peito. E assim que eu enxergo o bullying. Ele não está em tudo como muitos pregam. Ele reside na não comunhão mútua dos relacionamentos. Tudo que eu não permito que façam comigo é uma agressão e conseqüentente um bullying.
As pessoas deveriam parar e analisar seus atos, isso evitaria tragédias desumanas. Eu tenho uma grande dificuldade em manter amigos. Nao em fazer. Eu consigo me relacionar e criar laços, porém são temporários, nao consigo manter. Nao confio. Quando a pessoa começa a tomar um espaço grande demais em minha vida eu logo começo a me afastar. Porquê fui domesticado assim. Quando mais íntimo alguem for de mim mais chances esta pessoa terá de me ferir. Tudo isso são resquícios de uma infância e adolescência baseadas na agressão moral sobre minha pessoa.
Deveriamos aprender a ouvir. Quantos problemas seriam sanados se os pais ouvissem os filhos. Se os filhos ouvissem os pais. Se os amigos se ouvissem. Mas não, vivemos num mundo onde a minoria fala e a grande massa abaixa a cabeça e se transforma mesmo que inconscientemente naquilo que o outro diz.
Quero terminar com uma pequena reflexão.
Muitos jovens e até adultos gostam de usar o dito popular; a esta coca cola é fanta...agora eu te pergunto; e daí, e se for fanta mesmo. Ela não tem o seu sabor. O seu valor. Experimente conhecer. Voce nao precisa levar a 'fanta' para sua mesa, mas em contrapartida nao precisa joga la no lixo. Beba, viva com o sabor que te agrada. Mas respeite e deixe os outros serem como são. Esta coca é fanta? E dai eu gosto de guaraná mesmo. Simples assim..
O bullying emocional mata mais que o bullying físico. Isso muito sério e cresce a cada dia em nosso país. E o pior, ele começa dentro de lares ditos perfeitos. Pensem nisso.
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